domingo, 28 de setembro de 2008

A grande aventura (primeira parte)

Os homens do exército estavam a postos. Naquele momento, seriam nossos adversários, os que queriam nos impedir do nosso nobre objetivo. Com um ar sisudo, armas em punho, apontadas para cima, nos deram algumas informações, que pelo tom pouco amistoso mais pareciam ordens. As metralhadoras, pela primeira vez vistas por nós, chamaram mais a atenção que as palavras. 

De longe já tínhamos visto o que nos esperava. (As roupas camufladas não funcionam muito bem na cidade). Mesmo assim seguimos em frente, não acreditando na miragem e sem pensar no perigo que poderíamos estar correndo.

Éramos quatro, pequenos garotos, perto dos 10 anos de idade, inofensivos frente a alguns membros da força militar brasileira. Nossas roupas gastas, calçados velhos, nos denunciavam: não teríamos condições de um enfrentamento. Nem pensamos nisso ao sair de casa. Tínhamos plena consciência de nossa fragilidade e pouca experiência de vida. Fomos ao encontro deles, mas somente para levantar uma bandeira branca e tentar uma saída honrosa, e se possível (seria sonho demais?), efetivar o nosso plano. 

Dois, ao perceberem a recepção preparada, trataram de diminuir os passos, deixando os outros irem à frente. Com o coração batendo forte, no compasso do medo, quiseram declinar da idéia, voltar atrás. Mas não dava mais tempo, era agora ou nunca. Sob a liderança de um, ajudado pelo companheirismo de outro, tentamos um diálogo. Uma pergunta curta, nervosa e, talvez, gaguejante, resultou em uma resposta áspera, de cima pra baixo, como a situação de superioridade obrigava. 

Tentamos argumentar, mas foi em vão. A conversa não é o forte de pessoas que ficam o tempo todo com armas na mão. Se insistíssemos um pouco mais, talvez o diálogo seria feito por outro canal, mais rápido e certeiro que a boca. Das duas opções, a do enfrentamento ou a rendição, escolhemos a mais simples. Demos meia-volta, completamente derrotados, e retornamos a nossa vida de sempre. Afinal, enfrentar o exército com paus e pedras seria idealismo demais para alguns garotos de periferia. Até porque, o que buscávamos nada tinha a ver com um ideal humanitário.

Ao voltar para casa, remoendo a derrota, tentamos encontrar os motivos pelo fracasso. O tempo da viagem serviu para apontar culpados. O autor da idéia, como era de se esperar, foi o mais almejado pelas críticas. O oportunismo típico dessas situações veio à tona, em expressões como “eu sabia”, “eu não falei?”. 

Na minha cabeça, tentei recapitular todo o plano, o cronograma imaginado, passo a passo. Nessa tarefa, a única opção seria refazer a trajetória desde o começo, para, então, encontrar os furos que nos levaram a esse resultado frustrante. Afinal, quando veio essa maldita idéia, que nos levou aquela situação?

Continua no próximo post.

 

Um comentário:

Luiz Vieira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
eu escrevo e te conto o que eu vi e me mostro de lá pra você