Tinha tudo pra dar certo, o carro já estava encerado, os pneus tinham aparência de novos após a sessão de água-com-açúcar, a roupa já tinha sido engomada e tanto a barba quanto o cabelo já tinham sido aparados. Lambari estava entusiasmado com o programa iminente de sábado. Era uma empolgação adolescente, muita ansiedade e confiança. Não era seu debut, mas era mais uma chance de encontrar alguém pra ocupar (permanentemente) o banco do passageiro do seu carro. Tudo foi combinado 3 dias antes em uma conversa casual. O amigo, que já era comprometido, sugeriu uma noitada de dispersões em um bar super badalado de Goiânia. Lambari não titubeou: “Vamo sim, tô de bobeira nesse final de semana mesmo. Mas tem uma coisa... não rola eu ficar de vela pra você”. Condição mais que justa, uma vez que não seria nada trabalhoso para a namorada do amigo convencer uma quarta pessoa a ir com eles. Então assim ficou: Lambari iria passar na casa do amigo e pegar todos, também as duas garotas.
As perspectivas eram boas, Lídia - a namorada do amigo – havia anunciado com antecedência a beleza da escolhida para o passeio, comentou também sobre as perspectivas da garota e das possibilidades de voltarem dois casais do bar ao invés de um. Isso foi o que motivou Lambari a preparar tão bem o carro e o visual.
De fato a garota era bem aparada, tinha uma beleza evidente que era enfatizada com a maquiagem escolhida para a ocasião. Lambari desceu do carro e cumprimentou as garotas com 2 beijos no rosto. Ele notou certa apatia da amiga, mas nem se importou, provavelmente estava tão ansiosa quanto ele, o nervosismo provocava reações confusas nas pessoas, assim supôs. Abriu as portas para que todos entrassem. Como já era premeditado, o casal formado sentou-se no banco de trás enquanto a desejada sentou-se no banco do carona. Não tinha como dar errado. Quando preparava para ligar o som sentiu um toque no seu ombro:
– Vou te avisar antes que você pense diferente. Tenho namorado e gosto muito dele, sou fiel, a gente começou o namoro a pouco e não quero dar motivo.
Balde de gelo. Lambari tentou não transparecer o ressentimento e camuflar a condição de bobo: - Não tem problema, a gente vai pra se divertir, vamos beber um pouco, dançar... liga não. Essas palavras só saíram porque no fundo ainda havia uma esperança, por mais modesta que fosse. Quem conhece bem o Lambari sabe que não ia durar muito toda essa gentileza.
A noite caminhou, o bar estava bem movimentado (noite de sábado), não restava nada mais além de beber para contornar a situação e tentar despistar o engodo em que havia se metido. Depois de algumas cervejas as coisas ficaram mais claras, ou pelo menos parecia. Foi então que Lambari notou uma porção de trocas de olhares entre uma mesa vizinha e a puritana da sua mesa. Podia parecer impressão de rejeitado, dor de cotovelo, mas a confirmação veio após duas piscadas e um torpedo entregue pelo garçom a prometida. Ficou evidente o arrebatamento com que ela recebeu o recado.
Durou mais 2 cervejas até que Lambari se levantasse e fosse à mesa ao lado conversar com o remetente do torpedo. No início houve uma recepção assustada, pensaram que Lambari iria partir pra briga, depois houve uma resposta mais desconfiada. Mas nada..., Lambari convidou o rapaz a ir a mesa onde ele estava sentado, se dispôs a apresentar a amiga da namorada do amigo a ele, disse que havia notado a troca de olhares e que queria ser apenas cortêz. O rapaz, ainda desconfiado, não relutou muito, talvez por ter notado que o álcool era o protagonista daquele convite e que não teria como fazê-lo mudar de idéia - Lambari poderia passar a noite toda ali insistindo -. Ao chegar a mesa houve outro susto, todos ficaram exaltados e atentos a um movimento brusco. Lambari pediu que a garota fidelidade se levantasse para cumprimentar seu novo amigo. Ela, sem entender nada, levantou-se. O amigo tentou fazer com que ele se sentasse, a namorada do amigo cochichou no ouvido do namorado que o Lambari tinha bebido demais. Após os beijos, 2 como de praxe, a garota fez um movimento em direção à cadeira para voltar a se sentar, foi então que a idéia se fez.
– Agora você levanta daí e vai sentar a mesa dele, porque ele vai ficar com você, pagar a sua conta e te levar em casa. Você não é fiel, não é direita? Pensa que não percebi suas olhadinhas pra ele?, então, leva sua conta que o otário aqui cansou de fazer papel e palhaço. Disse Lambari, já com menor cordialidade, apontando pra garota e para o cara (o novo amigo).
– Não amigo - o cara disse já aceitando o grau de amizade -, não é assim, vamos conversar...
No mesmo momento os namorados se levantaram tentando contornar o imbróglio. Em vão, tudo tava decidido, tendo em vista a carga de orgulho que a bebida havia desencadeado em Lambari.
– Não haverá mais conversa, já disse tirando uma cadeira da mesa e a arrastando para a outra ao lado. Findou Lambari.
Os namorados não tentaram mais interferir, o medo de ter que voltar pra casa com o vizinho de mesa os fez não arriscar qualquer intercessão. A mesa se fechou novamente, mais algumas cervejas foram consumidas até o fim da noitada. Os três foram embora, e a tal esqueceu a fidelidade moral e teve que voltar com o novo affair.
Assim me contou o peixe.
No mais é só...
2 comentários:
Com mais uns mil Lambaris em circulação as marrentinhas pensariam duas vezes antes de aprontar. (Talvez não fosse necessária tanta delicadeza, mas ...)
Ótimo texto, o melhor que já escreveu no blog.
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