- Fui convidado, estranhamente pela primeira vez na vida, a ir a uma igreja protestante. Ela, como fiel recém “convertida”, estava na fase dos proselitismos, tentando mostrar aos outros a sua verdade, o que Deus tinha feito na sua vida, e poderia ser feito na vida de qualquer um, inclusive na minha.
- Senti o frio de um balde de gelo nos peitos. Então era isso, toda essa ousadia somente para me levar a sua igreja? Cai na real que todos aqueles gestos não eram exclusivos para mim, faziam parte de uma postura dos novos protestantes, que eles tinham com todos, conhecidos ou não.
- Afinal, após alguma insistência, fui ver no que dava, valendo pela experiência. Tirando da cabeça lembranças vagas e rasas sobre igrejas evangélicas, quis me preparar com apuro, para evitar ao máximo as atenções voltadas a um principiante.
- Do fundo do guarda-roupa, lá naquele cantinho escuro, tirei algumas peças de roupas que mais se pareciam com as usadas pelos “crentes”. Camisa social, calça básica e sapatos bem engraxados, que os jovens só usam em casamentos e batizados, muito a contragosto.Ao chegar à igreja, notei algum bem estranho, que eu nunca poderia esperar: eu era o mais certinho, tradicional e “careta” do recinto. Os evangélicos tinham mudado e eu não tinha percebido. Lá estavam eles, bem diferentes do que imaginara. Se os visse em outro local, juraria que seriam tudo, menos “crentes”. Camisetas cheias de estampas, calças repletas de bolsos e detalhes, tênis da última moda, gestos carinhosos, abraços, beijos, e muita, muita empolgação. Tudo ali deixava claro os maneirismos de uma juventude entregue a Deus.
- Fui querendo não chamar a atenção e alcancei o contrário, pelos menos nas vestimentas. Como escrevi acima, realmente acabou valendo somente pela experiência. Não fui "convertido" e nem achei tanta graça assim no local. Alegria e harmonia demais não é comigo, cheira a falsidade, quando não a idiotice mesmo.
- Dali pra frente, tudo ficou claro nessa amizade. Em termos religiosos, seria difícil um entendimento. Mas, sabendo disso desde o início, procuramos nem tocar nesse assunto. Ficamos na parte mais legal, as gracinhas, as piadas, e os risos, que tomam quase todo o tempo em que estamos juntos.
- Muitas histórias surgiram, podendo render fácil vários textos. Para se ter uma idéia, tudo o que contei até agora se restringe a apenas uma semana de convivência.
- Certo dia, num ônibus (como sempre), ouvi dela uma frase que nem levei a sério, pela generalidade impregnada até a raiz: “Eu te amo, como amo todas as pessoas”. Mesmo sendo apenas um depositário desse sentimento, no meio de bilhões de pessoas, senti-me honrado e feliz.
- Anos depois, conversando com um amigo, rememorei esse momento, que ela provavelmente nem se lembra. Após uma rápida reflexão, pela facilidade no veredito, cheguei a uma conclusão: “É, hoje posso, finalmente, dizer que eu a amo também".
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
A Amiga (parte final)
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Um comentário:
Kelson, sinto-me honrada por esse lindo texto em q vc escreveu narrando um pedacinho da nossa história... q será muito, muito longa e prazerosa.
Ainda te amo sim! E vou amar sempre!
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