sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A Amiga

  • A primeira frase que ouvi de sua boca já consta no rol das mais inusitadas: “Se eu cair, você me segura!”.
  • Apesar do amplo sentido, essas palavras exprimiam somente o sentimento de medo mesmo. Ela estava a minha frente, quase caindo de um degrau de ônibus lotado, se segurando nas pontas dos pés. Virou-se, olhou pra mim e mandou esse recado que, se fosse outra pessoa, soaria como uma súplica. Para Ela não.
  • A frase, combinada com um leve sorriso, escancarando a ironia, tinha uma leveza que nada tinha de medo ou aflição pela situação que estava passando. Tempos depois descobri uma de suas maiores virtudes: encarar os acontecimentos mais pitorescos e constrangedores possíveis com um cortante bom humor, rindo de si mesmo como se isso fosse tarefa para todos, quando na verdade o é somente para os grandes espíritos.
  • Não precisei atender ao pedido. Mas, desse primeiro contato surgiu uma relação marcada, acima de tudo, pelos momentos engraçados. Desde o início foi assim.
  • Nas viagens em um ônibus quase exclusivo de estudantes, as novas experiências eram trocadas entre calouros orgulhosos e esperançosos, olhados com desdém pelos veteranos que os consideravam empolgados, deslumbrados demais. Tudo muito normal, que passaria despercebido ao longo dos anos, senão fosse por Ela.
  • Ela, a única exceção à regra natural dos passageiros de qualquer transporte coletivo: passar. De um lugar para o outro e de nossas vidas, que compartilhamos com eles, de forma silenciosa, mas obrigatória, por um certo período de tempo. No dia a dia dos ônibus, aquela piadinha bem antiga mostra que estava certa, na vida “tudo é passageiro”. Ela, ainda bem, não foi.
  • Na primeira semana de contatos, quando ainda estava digerindo a sua ousadia de dizer que poderia cair em cima de mim, fui perguntado sobre os meus planos de final de semana. Disse que tinha um convite a me fazer. Com a cabeça localizada onde estão a de todos os homens, logo pensei em um programinha básico: cinema, bar, beijos, e por aí vai, até onde a garota permitir.
  • Mal tinha entrado na faculdade e já um convite desses? Cheguei à conclusão que o ambiente universitário seria promissor, sem as caretices da escola, regado a muita liberdade e aventuras, de todos os tipos. Ledo engano. Pelo menos para mim.
  • Na verdade, ainda bem que foi um engano. O que veio depois foi bem melhor que qualquer relação onde os pudores inexistem. Tem coisas boas que só o respeito, o carinho e as afinidades podem trazer. E a durabilidade dessas relações muito depende da inexistência de valores influenciados pelos desejos imediatos.
  • Um ou dois dias depois fui puxado, de supetão, para outra realidade, bem diferente da que estava imaginando. Deparei-me com o convite tão esperado, e não nego uma ponta de desapontamento e frustração tempos depois totalmente superada. Não seria um bar, um cinema, ou um shopping o local do primeiro encontro longe das dependências da universidade. Longe disso...
  • Continua no próximo post, sexta feira próxima.

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