A primeira frase que ouvi de sua boca já consta no rol das mais inusitadas: “Se eu cair, você me segura!”.
Apesar do amplo sentido, essas palavras exprimiam somente o sentimento de medo mesmo. Ela estava a minha frente, quase caindo de um degrau de ônibus lotado, se segurando nas pontas dos pés. Virou-se, olhou pra mim e mandou esse recado que, se fosse outra pessoa, soaria como uma súplica. Para Ela não.
A frase, combinada com um leve sorriso, escancarando a ironia, tinha uma leveza que nada tinha de medo ou aflição pela situação que estava passando. Tempos depois descobri uma de suas maiores virtudes: encarar os acontecimentos mais pitorescos e constrangedores possíveis com um cortante bom humor, rindo de si mesmo como se isso fosse tarefa para todos, quando na verdade o é somente para os grandes espíritos.
Não precisei atender ao pedido. Mas, desse primeiro contato surgiu uma relação marcada, acima de tudo, pelos momentos engraçados. Desde o início foi assim.
Nas viagens em um ônibus quase exclusivo de estudantes, as novas experiências eram trocadas entre calouros orgulhosos e esperançosos, olhados com desdém pelos veteranos que os consideravam empolgados, deslumbrados demais. Tudo muito normal, que passaria despercebido ao longo dos anos, senão fosse por Ela.
Ela, a única exceção à regra natural dos passageiros de qualquer transporte coletivo: passar. De um lugar para o outro e de nossas vidas, que compartilhamos com eles, de forma silenciosa, mas obrigatória, por um certo período de tempo. No dia a dia dos ônibus, aquela piadinha bem antiga mostra que estava certa, na vida “tudo é passageiro”. Ela, ainda bem, não foi.
Na primeira semana de contatos, quando ainda estava digerindo a sua ousadia de dizer que poderia cair em cima de mim, fui perguntado sobre os meus planos de final de semana. Disse que tinha um convite a me fazer. Com a cabeça localizada onde estão a de todos os homens, logo pensei em um programinha básico: cinema, bar, beijos, e por aí vai, até onde a garota permitir.
Mal tinha entrado na faculdade e já um convite desses? Cheguei à conclusão que o ambiente universitário seria promissor, sem as caretices da escola, regado a muita liberdade e aventuras, de todos os tipos. Ledo engano. Pelo menos para mim.
Na verdade, ainda bem que foi um engano. O que veio depois foi bem melhor que qualquer relação onde os pudores inexistem. Tem coisas boas que só o respeito, o carinho e as afinidades podem trazer. E a durabilidade dessas relações muito depende da inexistência de valores influenciados pelos desejos imediatos.
Um ou dois dias depois fui puxado, de supetão, para outra realidade, bem diferente da que estava imaginando. Deparei-me com o convite tão esperado, e não nego uma ponta de desapontamento e frustração tempos depois totalmente superada. Não seria um bar, um cinema, ou um shopping o local do primeiro encontro longe das dependências da universidade. Longe disso...
Continua no próximo post, sexta feira próxima.
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