― Não posso por quê? – perguntou Leo intrigado com a repreensão.
Dona Nilma, a matriarca, deteve no ar uma expressão vaga, olhando para o canto superior direito, e descarregou sobre Leo sua autoridade.
— Porque sim, Leo! A Lorinha me contou que o vizinho da mãe dela morreu depois de comer manga com leite.
Leo aceitou. A sugestão de morte era mais que suficiente para que ele aceitasse qualquer explicação mal explicada.
Numa noite de quinta-feira, o céu estava repleto de estrelas, não havia uma nuvem sequer que pudesse frustrar qualquer brilho estelar. A estrela-d’alva estava mais nítida que nunca, também estavam todas as constelações que Leo conhecia.
― 1, 2, 3, 4... – Leo pôs-se a contar.
― Pelo amor de Deus, preste atenção no que está fazendo!
Seu Otávio, o patriarca, de imediato o repreendeu segurando sua mão.
― Uai, não posso contar estrelas por quê?
― Cada estrela que apontar é uma verruga que surge no seu corpo. – convenceu Leo - O sobrinho do Sr. Lino tem o corpo todo empolado daquele jeito por causa disso, por isso o chamam de choquito.
Tudo o que Leo menos queria era verrugas, a possibilidade de tê-las era mais que suficiente para que ele aceitasse qualquer explicação mal explicada.
Novamente Leo foi repreendido quando quis ler o gibi após o almoço, o medo de ter a vista estragada o fez desistir. O medo de ter o rosto entortado fez com que ele não bebesse água após ter tomado café quente - mesmo sendo a sede muito maior que a vontade que o fez tomar o café -, nem abrir a geladeira depois de sair do banho morno. Havia também os sinais de morte, estes eram os mais temidos por Leo, não permitia que alguém pulasse sua perna quando ela estava esticada pelo caminho (isso poderia ser indício de alguma morte), chinelo virado de cabeça para baixo era outro indício de um acontecimento funesto. Vassoura de trás da porta para visitas indesejadas, previsão de velório ao avistar uma coruja...
Leo, na adolescência, se sentiu sábio quando descobriu por si próprio que as coisas mal explicadas eram assim porque não tinham explicações, não existiam. Já estava maduro para discernir o que era possível, assim pensava. Por um bom tempo quis contestar as opiniões dos pais, por ter sido enganado pelos pais.
Já adulto Leo ri de todas as crendices da sua infância. Não foi enganado pelos pais, ao contrário, sua infância foi repleta de aventuras motivadas pelos medos repentinos, assim pensa. Acha o máximo relembrá-las, as repete para os amigos que também compartilham das superstições. Tudo agora virou nostalgia, nostalgias...
No mais é só...
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