domingo, 21 de dezembro de 2008

Ainda não era o tempo da maldade

Era o tempo da inocência, o senso comum diria. Seis pra sete anos de idade. Mas, o que aconteceu ali, naquele pequeno quarto, a mesma multidão de pessoas comuns atestaria como a maior devassidão. Inocentes participando disso? É, a ambigüidade é a melhor forma de se entender a vida.

      Uma garota e dois meninos, trancados em um cômodo. Um agravante: a garota tinha, entre os participantes dessa experiência nada pueril, um irmão mais novo.

      Numa cidadela distante, longe da civilização (não, não era a terra do personagem da música Faroeste Caboclo), vivia eu e meus pais. As distrações quase inexistiam. As poucas que tínhamos acesso eram boladas por nós mesmos, em comunhão com os vizinhos. Local onde uma boa relação com a comunidade seria crucial para uma vida harmônica, já que não tínhamos a opção de nos enfiar em casa, distraindo-nos com televisão, internet ou filmes. O jeito era ir pra rua e conviver com as pessoas.

      E, a minha parte, eu fiz bem: convivi intensamente com meus vizinhos infantis. Esses dois, que participaram do tema deste relato, moravam ao lado de casa. Dos seus nomes não consigo me lembrar. Como tudo isso começou, também não.

      O que mais lembro? Ah, as brincadeiras! Quando, diariamente nos juntávamos, elas é que davam à tona, de forma deliciosa. Nesses momentos, a descontração favorita era a formação de uma família imaginária, composta de pai, mãe e filho. (Como eu e a garota éramos os mais velhos, os principais papéis ficaram fáceis de serem preenchidos. Claro que também tinha o agravante de um irmão não poder ser casado com a irmã, mesmo de brincadeira.).

      Ali, trancados no dormitório dos vizinhos, as minhas tardes passavam com uma rapidez impressionante. O calor, o local abafado, nada disso incomodava tanto. O que importava mesmo era o prazer dos divertimentos infantis. No entanto, de forma abrupta, tudo tomou contornos mais sérios, e passamos a temer represálias por conta das nossas alegrias incontidas e prazeres escondidos, guardados somente para nós.

      Num dia especial, ficou marcada a nossa passagem para o mundo da maldade, dos adultos, dos múltiplos sentidos de uma experiência. Uma moça, que trabalhava naquela casa, resolveu dar uma vistoriada nas nossas ações. E o que viu a assustou mais que a traição do seu marido em sua própria cama. Ficamos sem entender nada, somente com medo, gerado pelas ameaças desta: - Vou contar tudo para os seus pais.

      A imagem daquela tarde inofensiva chegou aos ouvidos dos nossos juizes. Olhada com a visão de hoje, realmente era assustadora aquela brincadeira. Três crianças, uma no chão e duas na cama. A única composta com vestimentas estava no chão, alheia ao que acontecia perante os seus olhos. No leito, a nudez estava disfarçada pelo lençol, que logo gerou desconfiança por conta da tarde ensolarada e da temperatura alta. Quando puxada, levou a mais um espanto. Agora éramos réus, acusados de libertinagem e práticas incoerentes com as nossas idades.

      A promotora atuou com competência, apontando todos os detalhes que iriam agravar a nossa situação: além da nudez, nossas mãos estavam em locais considerados “proibidos”. A inexperiência em lidar com assuntos tão complexos nos fez péssimos advogados de defesa. Tentamos convencer que o estado natural seria por conta do forte calor, mas não resolveu muito.

      Como resultado, ficamos muito tempo sem nos ver. Fui proibido de entrar naquela casa. Os pais dos meus amigos (principalmente o pai), não conseguiam olhar pra mim sem demonstrar um ódio latente.

      Apesar desse universo parecido com os enredos dos livros de Nelson Rodrigues, para nós era apenas uma brincadeira. Uma inocente brincadeira de criança, na qual o hedonismo predominava e a moral e os juízos de valor não estavam representados. Claro que, aos olhos adultos, tudo foi levado a sério. No final, tudo deu certo. Ao contrário da música do Chico Buarque, nesse caso quem inventou o pecado, acabou inventando também o perdão. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Olho(s) Mágico(s)


As sensações eram mais evidentes, tínhamos em torno de catorze para quinze anos. As meninas deixavam de ser nossas rivais. Nada mais de meninos contra meninas, ao contrário, começávamos a misturar os clubes do bolinha com o da luluzinha. As garotas se enchiam de penduricalhos e maquiagem, enquanto nós tentávamos inovar no vestuário: calças multicoloridas, com bolsos laterais, camisetas de banda, bonés colocados na cabeça de ene formas diferentes... Tudo com um único propósito, impressionar as coleguinhas. Era a idade em que os pensamentos eram regidos pelos hormônios, a testosterona começava a ditar nossa maneira de agir. Um simples sinal de qualquer peça íntima feminina desencadeava uma série reuniões que desaguavam em várias histórias que (verídicas ou não) eram precursoras de confissões inesperadas sobre os amores da idade e de muitas gargalhadas.
Na oitava série (sério dos beijinhos e abraços) havia mais alvos que metas, até porque as meninas começavam a se interessar pelos garotos mais velhos, e elas, com corpos em formação, despertavam mais interesse ainda dos rapagões. Isto fazia com que as meninas se distanciassem de nós mais jovens. Mas a impossibilidade de conquistas não nos impedia de fantasiar. Repetidamente sentávamos num canto da sala e ficávamos absortos exercendo a idolatria dos corpúsculos, apontando para as mais chamativas e sugerindo episódios eróticos nada românticos. 
Essas rodinhas não se limitavam à escola e se estendiam para além dos muros do colégio. Em um desses eventos extraclasse o acaso nos propiciou momentos de deleite surpreendentes. Na casa de um colega de classe descobrimos, sem a menor intenção, por coincidência que a vizinha dos fundos (para nossa felicidade) era a mais vistosa novata da oitava série. E, por conta disso, um caprichoso orifício foi aberto no muro, tínhamos então acesso a privacidade alheia. 
Além da curiosidade inicial, e do fato de ver a área dos fundos de uma casa, não deveria ter nada de atrativo, pelo menos não deveria se não fôssemos agraciados pela imaginação juvenil e pelo habitual costume da garota entrar no quarto agasalhada e voltar sem nenhum lenço sequer cobrindo seu corpo.Tínhamos descoberto o pote de ouro atrás do arco-íris.
Toda essa libertinagem não podia ficar restrita a um grupo tão resumido. Na adolescência as travessuras só se tornam prazerosas quando são compartilhadas com os amigos. Entretanto, não podíamos anunciar num carro de som, no máximo contar para pelo menos os melhores amigos. Na semana seguinte o número de aberturas no muro havia dobrado enquanto o número de espectadores triplicado. 
O fato dos pais da colega não ficarem em casa durante o dia a obrigava (junto com dois irmãos menores) a realizar todas as tarefas de casa, inclusive cuidar das roupas. Contávamos os minutos para o dia da lavanderia, pois era quando ela mais se aproximava do muro. Os dias de lavanderia eram os de lotação máxima, tanto que o muro não comportava tantos garotos eufóricos, alguns menos dispostos a esperar a vez subiam (na mesma velocidade que caiam) em árvores tentando adiantar as sensações. Por conta dessas minuciosas observações aprendemos todos os passos para se lavar uma roupa.
Embora a protagonista não tivesse notado nossa presença, nosso recreio não durou muito tempo. Nosso colega, o dono da casa, que na verdade era um inquilino, foi obrigado a encontrar uma nova moradia, pois o proprietário de fato daria outro uso ao imóvel. Juntamos todos pra tentar bolar algo que pudesse contornar, ou somente prolongar, esse infortúnio. Nada pudemos fazer... 
Nos contentamos então em aproveitar os últimos dias que, não por acaso, foram os melhores, nossa normalista guardava para despedida as melhores atuações, como se soubesse que era a derradeira aparição diante dos olhos mágicos. O saboroso lazer não tornou a se repetir, passamos o resto da amizade reconstruindo os episódios através de esporádicas recordações saudosistas.
No mais é só...
eu escrevo e te conto o que eu vi e me mostro de lá pra você