quarta-feira, 29 de outubro de 2008

ô, ô, ô, o Coringão voltou


Faltou ar quando foi anunciado a queda do Corinthians para segunda divisão. Podia ter acontecido com qualquer clube, mas não com este. 
O corintiano é repleto de orgulho, orgulho próprio, orgulho de ser fiel, orgulho dos títulos, orgulho de ser o “primeiro” campeão mundial e, principalmente, orgulho de ser corintiano. Assim, foi árduo aceitar a idéia de ver nosso time de vida passar um ano sem freqüentar a elite do futebol brasileiro. Mas não é à toa que a torcida não cansa de dizer “ser campeão não é fundamental, fundamental é ser corintiano” (Ufa!, senti um arrepio agora). Essa é a frase que resume o nosso sentimento de torcedor.
Este blog apresentou (no último post) um exemplo de como e por que escolhemos um time de futebol. Vou ser incisivo agora. Nós não escolhemos o Corinthians, nós somos escolhidos. É o que Darwin chamava de seleção natural. Isso tudo porque não basta ser torcedor, é preciso sentir arrepio ao ver a torcida gritar, se sentir íntimo de alguém que esteja com a camiseta do Corinthians, é preciso acima de tudo sofrer e ter a sensação de que é um sofrimento passageiro que antecede qualquer grande conquista. 
O sofrimento do corintiano não é o mesmo do dicionário, não é algo que nos incomoda, é O SOFRIMENTO. Sofremos (em 1ª pessoa) 23 anos sem títulos e mesmo assim a torcida aumentou. Não importa a dificuldade, o corintiano persevera. Daí você pergunta: Como isso pôde acontecer?! Eu respondo – isso é fisiológico, movimentos involuntários, subconsciente, o ID... 
Percebi que o sábado último era um dia diferente, as sensações eram bem mais evidentes. Presságio de corintiano. Havia uma semana que estava sendo anunciado o vôo da fênix, o regresso do timão a série A. Eram apenas hipóteses, não dependia unicamente de uma vitória corintiana, era necessário ainda que o Barueri (4º colocado) perdesse o jogo para o Paraná (13º colocado). Situação difícil para um torcedor comum, mas para nós tudo estava certo, 25/10/08 era o dia da redenção. 
O jogo? Nem me lembro como foi. Agora a festa foi uma das coisas que mais me emocionou nesses vinte e poucos anos de fiel torcedor. Isso não consigo explicar. Na verdade as sensações surgem espontaneamente, como uma torrente de sentimentos, calafrios, frios no estômago, suor excessivo...
Certo dia uma amiga me perguntou o que eu havia sentido no dia, respondi com todos os detalhes, sem esquecer um ponto sequer. Ela ficou surpresa e murmurou “Por que você não é assim com as pessoas?”. Hmm... Acho que a resposta está no murmúrio, minha sensibilidade deve estar toda direcionada para o timão, não sobrando nada para as pessoas, menos ainda para os não corintianos. Por isso não canso de cantar, ô, ô, ô, o Coringão voltou, o Coringão voltou, o Coringão voltoooooou, ô, ô, ô, o...
Parabéns Corinthians!
No mais é só...

domingo, 26 de outubro de 2008

O amor pelo Palmeiras

Estava rolando o ano da graça de 1992. No alto dos meus dez anos de idade, tinha uma grande preocupação. Estava precisando tomar uma decisão, uma das mais importantes da minha vida, a que iria me influenciar por todo o resto dela: escolher um time de futebol. Quando digo escolher, não é de todo verdade. Já tinha um, o Vila Nova, mas pela pouca (ou nenhuma?) expressão nacional do time colorado, havia a necessidade de ter um outro, com força nacional, capaz de fazer frente aos demais times do país.

Meu pai, vascaíno, até quis me influenciar. Me comprou uma camisa do Vasco da Gama, preta com uma listra branca. Junto dele, comecei a acompanhar os jogos do campeonato carioca, pelo seu radinho Motor-rádio, sintonizador de alta qualidade da Rádio Globo, que tinha no comando das jornadas esportivas o “Garotinho” José Carlos Araújo.

Uma ótima geração de craques vascaínos chegou aos meus ouvidos iniciantes no entendimento de futebol: Bebeto, Sorato, Washington, Willian, Acácio, Jorge Luiz, entre tantos outros. Meus tios, flamenguistas fervorosos, queriam por que queriam tirar de mim essa sina de torcer pelo inimigo. Por fim, resolvi fugir dessa intriga, e para isso nada melhor do que escolher um time neutro, um paulista. Os clubes de São Paulo começaram a década de 1990 angariando torcedores do Brasil inteiro, que passaram a considerar o futebol carioca bagunçado e decadente.

Acompanhando um jogo pela tv, senti meu coração mostrar o caminho. Nos ataques do outro time ele batia com força, pulsando, demonstrando medo. A equipe atacada era o Palmeiras, ainda decadente naquele período, passando por um jejum de títulos de dezessete anos. Para um torcedor em fase de escolha, aquele seria um time pouco atraente, já que nem se fazia idéia da parceria com a empresa italiana Parmalat.

Mas a escolha tinha sido feita. Afinal, coração de torcedor foi feito pra sofrer mesmo, devo ter pensado. Contra todas as previsões, os anos seguintes foram somente de alegrias para os palestrinos. De lá para cá, vi tantos títulos, torci por tantos ídolos, que não me arrependo nenhum dia pela escolha. Já no ano seguinte o Palmeiras venceu o título paulista (em cima do Corinthians, após o Viola imitar o porco, até então não visto como mascote pelos torcedores do verde) e o brasileiro. Em 94 mais dois títulos, os mesmos paulista e brasileiro, novamente em cima dos corinthianos.

Foram muitas alegrias e algumas tristezas. Edmundo brigando com os são-paulinos teve lá a sua graça. Perder uma Copa do Brasil para o Cruzeiro, em pleno Parque Antarctica, doeu. Torcer pela família Scolari na Libertadore de 99 deu uma sensação que o futebol ainda era um ambiente de decência e amor a camisa. A falha do maior ídolo, o goleiro Marcos, na partida contra o Manchester United mexeu com todos, mas em nada abalou a sua relação sempre positiva com os torcedores. A sua defesa do pênalti do Marcelinho, na Libertadores seguinte, apaga qualquer má impressão.

São muitas e muitas histórias, mas não caberiam aqui nesse texto. Uns times inesquecíveis: o dos títulos Paulista de 1993 e 1996; da Libertadores de 1999. Vários grandes ídolos: Djalminha (talvez o melhor que já vi com a camisa do verdão), Alex, Rivaldo, Valdívia, Marcão, Arce, Roberto Carlos, César Sampaio, entre tantos outros.    

Para evitar delongas, melhor sintetizar tudo isso em apenas uma frase, entoada pelos locutores esportivos de 2000: “São Marcos defende o penalty de Marcelinho Carioca!!!  O Corinthians está eliminado da Libertadores!!!”.

 

 

domingo, 12 de outubro de 2008

A grande aventura (parte final)

Estávamos na 5º série. Certo dia, vendo uma colega com alguns apetrechos da Coca-Cola (estojo, caneta, borracha...), quis saber onde ela tinha conseguido. A resposta veio como um incentivo: na própria fábrica, que ficava sempre aberta a garotos e garotas desejosos de brindes escolares. A facilidade, como sempre, ficou somente nas nossas cabeças.

No meu exercício contínuo de imaginação, talvez influenciado pelo desenho “O fantástico mundo de Bob”, vi uma fábrica similar a do Willy Wonka (substitui-se o chocolate pelo refrigerante), algo como um paraíso das crianças, repleta de refrigerantes, novidades, pessoas nos agradando, e muitos brindes.

Contei a boa nova aos amigos. Entre os desconfiados, sem esperança, pessimistas e profetas de mau-agouro, encontrei alguns otimistas, ávidos por coisas gratuitas, dispostos a ir atrás dos penduricalhos: Luiz (ele mesmo, o meu parceiro de blog), Evandro e Marcinho.

Fizemos vários planos para o que iríamos ganhar. Usar, dar a algumas garotas, e até vender - bem caro, aqueles que duvidavam do nosso êxito. Receberíamos beijinhos, abraços e até alguma grana. Bastava ir à fábrica, pegar os produtos e esperar os benefícios. O caminho percorrido foi cheio de risos e brincadeiras. (As crianças costumam ser esperançosas por natureza). Quando descemos do ônibus, notamos que o mundo não era tão azul: os homens de farda camuflada estavam lá.

Não me pergunte o motivo, mas tinha sim soldados do exército na portaria da fábrica da Coca-Cola. Seria um prenúncio de uma aliança futura entre o Estado brasileiro e a maior das transnacionais? Ou o contrário, uma tentativa de nacionalizar a empresa, digna de um Evo Morales ou Hugo Chaves? Não, o presidente na época Fernando Henrique não tinha essas características nacionalistas. Para os acreditam em teorias da conspiração pode-se encontrar vários motivos dos soldados lá.

Por ironia do destino, alguns anos depois, fui trabalhar naquela fábrica, mas já não tinha vontade de ganhar brindes, só dinheiro mesmo, pelo trabalho árduo executado (fiquei lá três meses carimbando papéis e disfarçando que estava fazendo algo importante).

Estando dentro do paraíso, percebi que a maior fábrica de refrigerantes do mundo estava longe de ser a “Fantástica Fábrica de Chocolate”, que via no “Cinema em Casa”, do SBT. Ali, por incrível que pareça, não vi nenhuma visita de crianças. Brindes? Nem pensar. Logo conclui que as crianças têm uma ingenuidade que as fazem cometer tolices.

Mas, se houve êxito ou não, agora penso que pouco importa. Relembrando aqueles momentos, cheguei à conclusão que os caminhos são tão ou mais importantes que os objetivos. Os objetivos são logo esquecidos e substituídos por outros, já os caminhos ficam na memória, como um ensinamento perene.

Se não conseguimos alcançar o objetivo principal, no entanto, ficamos com o melhor: a aventura. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Os macacos da UFG

Estava no shopping quando meu telefone tocou, era a aspirante/estudante de pós-doc me ligando para avisar que a faculdade estava na penumbra. Não havia uma correntezinha elétrica sequer no instituto de física. O que dá para se fazer em uma universidade sem energia? Ainda mais neste instituto, em que muitos vão lá pra usufruir da rapidez da internet. Jogar truco talvez, sinuca, xadrez... Como ainda não estudo no escuro e nem tenho aptidão pra nenhum desses jogos, decidi ir do shopping para casa.

– Não há nada para se fazer aí então – disse ao telefone.
– Então ta, né? – ela respondeu já conformada com a viagem perdida.

Situação corriqueira? Quedas de energia acontecem em todo lugar a todo momento. Hmm... O caso da UFG não se trata de uma desventura casual, e, sim de uma tramóia, provavelmente de uma comunidade que vive há muitos anos no campus, suspeito. Explico:
Quando cheguei na universidade, há 7 anos, eles já dominavam os caminhos de paralelepípedos entre os prédios, aterrorizando os calouros. A federal de Goiás era infestada de macacos (do tipo prego) que se organizavam aos bandos, tudo muito sincronizado: havia os operários, que se incumbia de ir para o corpo-a-corpo com os alunos, fazer o terror, saquear os laboratórios e despistar as atenções; havia os estrategistas, que planejavam os golpes às lanchonetes e cantinas; por fim, havia os líderes, geralmente de tamanho avantajado e músculos visíveis - quando comparados aos demais – que (obviamente) mandavam. Toda essa organização era evidente. Assim que um operário surrupiava um sustento os líderes (avantajados!) se encarregavam de se apoderarem de tudo por meio de safanões. Não era difícil ver macacos assistindo aulas, fazendo cálculos e operando aparelhos escondidos, enquanto aguardavam uma oportunidade de ação. Por mais que houvesse quem não concordasse com a socialização dos bichos não havia como evitar o trânsito deles nos prédios, tudo porque eles tinham o aval dos biólogos. “Se você quiser bater em um pesquisador bata, mas não encoste um dedo em um macaco que você corre o risco de ir preso”, assim comentavam os estudantes de biologia quando tocávamos no assunto.
Não bastasse a proteção que eles tinham do pessoal do ICB, apareceram os entusiasmados, que iam para o bosque para jogar petiscos e mostrá-los para os filhos (geralmente crianças pequenas). Tudo que pudesse mastigar era arremessado em direção aos bichos, salgadinhos, pipocas, refrigerantes, churrascos, sanduíches, qualquer alimento era bem vindo e bem aceito por eles. Quando alguém, mais consciente, oferecia uma maçã ou uma banana a um dos macaquinhos eles gesticulavam nervosos como se dissessem “cadê o cheetos com coca-cola?!”.
A idéia de proteger os primatas era até válida, mas com a quantidade de aulas que eles eram submetidos certamente haveria uma evolução nos seus comportamentos, e mesmo os biólogos poderiam não ter o controle de tantos bichos. E aconteceu, não demorou muito e o caos se fez. Os mesmos que zelavam pelo bem estar dos animais propuseram a reintegração deles à floresta. Vários cartazes com macaquinhos desenhados e com dizeres do tipo “se você é meu amigo não me alimente, me ajude voltar para casa” foi espalhado pelo campus. Estava proibido bajular os pregos, e, principalmente jogar petiscos. Uma semana depois da retaliação os macacos enlouqueceram, passaram até a organizar motins, chegaram a destelhar parte do restaurante na intenção de abrir uma passagem até a cozinha. Estavam acostumados a receber comida na boca, não tinham condições de procurar comida no mato, e nem queriam isso. A abstinência dos alimentos industrializados tinha efeitos danosos nos mais selvagens e fazia com que os mais habituados ao ambiente acadêmico pusessem em prática tudo que aprenderam durante anos na universidade.

– O que aconteceu com a energia? – perguntei antes de desligar o telefone –
– Não sei ao certo, mas parece que os macacos foram os responsáveis, um deles caiu em cima do transformador de energia.

Isso pra mim bastou. A queda de energia não foi um imbróglio do destino e sim uma armação da colônia de animais do campus (digna do “Pink e o Cérebro”), em que tudo foi orquestrado pelos lideres e planejado pelos estrategistas. O macaco kamikaze, que cometeu suicídio se atirando no transformador, era um do tipo operário.
Tudo resultou em dois dias sem aulas, sem trabalho, sem experimentos...



No mais, é só...
eu escrevo e te conto o que eu vi e me mostro de lá pra você