domingo, 9 de novembro de 2008

4 Filmes Nacionais

O Cheiro do Ralo: Filme bem louco, não espere entender todas as nuances, e não procure o significado das ações dos personagens. Em compensação, ria das criativas frases colocadas aqui e ali, e que carregam amplos sentidos. Selton Mello nos agracia com uma atuação estupenda, digna de um dos melhores atores brasileiros de cinema. Ele pertence aquela safra de astros que dispensa apresentações, e que por si só já valem o filme. Ponto alto: a atuação de Selton e os diálogos bem surreais. Ponto baixo: a difícil compreensão do enredo (mesmo sabendo que nem tudo deve ser entendido).

Cinema, Aspirinas e Urubus: Palmas para João Miguel, que já entrou para a lista dos meus atores favoritos. Cinema, Aspirinas e Urubus é um daqueles filmes meio paradões, onde quase nada acontece durante todo o seu tempo de exibição. No entanto, nos dá algo mais proveitoso: uma bela fotografia, atuação impecável dos atores, e diálogos interessantes e por vezes emocionantes. O sertão brasileiro, com todas as suas simbologias, possibilita a entrada do espectador na essência do ser humano, deixando claro que a frase de Guimarães Rosa está certíssima: “o sertão está em todo lugar”. Ponto alto: a fotografia e a atuação dos atores principais. Ponto baixo: não encontrei.

Batismo de Sangue: desses filmes, considero o que está mais aquém. E deveria ser o oposto, pois retrata o período que mais me interessa, o da luta armada nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil. Já li muito sobre a participação dos frades dominicanos na militância de esquerda, e principalmente no auxílio da ALN de Carlos Maringuela. Talvez por isso o filme me pareceu por demais didático, servindo somente para ilustrar fatos já conhecidos pela leitura. Para quem não conhece bem a história tratada no longa, pode ser mais proveitoso e agradável. Ponto alto: Caio Blat e Daniel de Oliveira, como Frei Tito e Frei Beto, respectivamente. Ponto baixo: o didatismo, mas essa é uma opinião bem pessoal, já explicada acima.

Ó Pai Ó: acima de tudo, divertidíssimo. A combinação Lázaro Ramos e Wagner Moura parece perfeita e a prova de qualquer fracasso. Wagner, com uma atuação exagerada em um primeiro momento, rouba a cena, deixando as melhores partes do filme. Lázaro tem um talento extraordinário, protagonizando o longa com talento e eficácia. Mas, ao contrário do que parece, os dois atores tarimbados não carregam o filme nas costas. O bando de teatro Olodum cedeu alguns grandes atores, que não fazem feio frente aos outros mais conhecidos. Érico Brás, representando o mulherengo Reginaldo, é responsável por momentos impagáveis de humor e desenvoltura. No fim das contas, a bagunça de Ó Pai Ó nos trás o espírito baiano, com um realismo pouco experimentado no cinema brasileiro. Ponto alto: os atores, tanto os conhecidos quanto os outros. Ponto baixo: o excesso de músicas, tornando o filme quase em um musical (mas nada que comprometa demais, afinal, a característica principal dos baiano é a sua musicalidade). 

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sem consenso

Ao longo dos anos somos expostos aos olhares alheios, a esmiuçada opinião dos outros sobre nós. Logo em nosso primeiro contato com o mundo social, livres dos olhares paternos, demonstramos nossas características mais latentes que, merecido ou não, nos rendem apelidos geralmente depreciativos, tirados de alguma particularidade física ou moral. Quase sempre é por estes apelidos que somos conhecidos pelo resto da turma: e aí tampinha; ô baiano; fala caveira; vai jogar bola hoje tripa?... e por aí vai. Quem nunca teve um amigo que era chamado de gordinho, magricela, ou um eleito como quatro olhos? Me lembro de todos os personagens de minha infância. Na vizinhança tinha o capitão lixo, por gostar muito de brincar na rua estava sempre sujo e isto foi suficiente para ser comparado ao personagem dos gibis. Na escola tinha o wildsonberne, teve a terminação "berne" incorporada a seu nome depois de aparecer com o rosto inchado por causa do infortúnio contato com o inseto de mesmo nome. Ainda havia o chicão, devido aos seus hábitos mais caipiras. Isso é quase uma lei entre as crianças, talvez por que fica mais fácil e mais divertido identificar os coleguinhas, além de não confundir os garotos com nomes iguais. Mas as denominações não se limitam a termos pejorativos (como diria a Larissa, termos terminados com eiro. Hahaha), há ainda os privilegiados, geralmente os providos de uma beleza evidente ou de uma família mais tradicional ($). Estes são excluídos dos cognomes engraçados e são agraciados com designações bonitinhas, quase sempre terminadas com o sufixo “inha”. Em geral os apelidos casam com os personagens, pois todos são nomeados de acordo com as características mais evidentes, mas nem sempre é assim, alguns apelidos não pegavam exatamente por não corresponder em nada com a realidade e sim por simples zombaria. Embora essa prática seja mais notável na infância ela permanece ao longo de nossas vidas, estamos sempre sendo alvos dos olhares mais maliciosos, a diferença é que não somos mais informados como quando éramos crianças.

Poderia discorrer mais um tanto de linhas a respeito dos apelidos que recebemos ao longo da vida, mas este não é o objetivo deste texto. Pelo menos não de maneira geral. O fato é que a tempos venho sendo forçado a admitir que pertenço a tribo dos NERDS. Não que o “título” seja algo depreciativo (não pra mim), mas simplesmente porque minhas características naturais destoam bastante das dos portadores de nerdismo. Desde já vou adiantando, o termo NERD surgiu na década de 1950, derivado de Northern Electric Research and Development e era atribuído àqueles indivíduos que passavam dias e noites infurnados no laboratório envolvidos em pesquisas. Hoje são descritos de forma estereotipada devido a algumas excentricidades mais notáveis, tais como: intensa atividade intelectual em detrimentos de outras mais populares, pouca interesse por atividades físicas, dificuldade de integração social, necessidade de analisar tudo minuciosamente, e grande fascínio por conhecimento e tecnologia. Portanto, para que se possa enquadrar no grupo é necessário satisfazer uma porção de condições e não apenas uma delas. Ta certo que os NERDS têm mais afinidade por exatas, conhecem e se interessam por ciência de maneira geral, que são analíticos e cheios de fraseologias não muito comuns... Mas daí a generalizar... Então todo cientista é um NERD?

Vamos pontuar minhas características:

· Tenho um interesse imenso por ciências, mas não troco uma festinha com amigos por uma noite em cima dos livros.

· Sou físico por formação, gosto das exatas e de passar um tempo no laboratório, mas sei que essa é uma parte da vida e que, apesar de todo o prazer, é quase um trabalho.

· Sou bem analítico, penso em tudo e tento fazer tudo com embasamentos, mas isso foi sendo agregado a minha personalidade ao longo dos anos de universidade.

· Gosto, demasiadamente, de esportes. Pratico vários e com um pouco de facilidade.

· Não gosto de muitas pessoas, mas gosto de estar com pessoas interessantes, tenho hábitos sociais bem evidentes.

· Definitivamente, não acho muita graça em tecnologia e gosto muito pouco de filmes de ficção científica.

Está claro? Obviamente que coloquei minhas atribuições que vão de encontro às dos nerdistas, mas são todas verdades incontestáveis. Mas vocês devem pensar o quanto é conveniente pra mim escrever o que eu acho em desacordo com a opinião de vários, né? Hã hã... tenho provas. Caminhei (uma coisinha de NERD) pelos trilhos da internet fazendo testes, os mais variados possíveis, para me certificar de que não se trata de obra do orgulho próprio, além de me isentar da possibilidade da dúvida.

Teste da revista VEJA:

Entre 40 e 70 pontos
Você tem algumas características nerds, entre elas um profundo prazer pelo exercício intelectual. Por isso, assuntos em geral pouco apreciados pelas outras pessoas o atraem tanto. Aparência não é uma prioridade, mas você se preocupa em se apresentar de maneira adequada

Teste de um site qualquer:

Pessoa Comum!
Você é um simples e comum humano, não possui nenhuma característica nerd.

The Nerd Test, ver 2.0:

Your Score Summary

Overall, you scored as follows:

26% scored higher (more nerdy),
1% scored the same, and
73% scored lower (less nerdy).

What does this mean? Your nerdiness is:
Mid-Level Nerd. Wow, it takes a lot of hard nerdy practice to reach this level.

Neste ultimo, foi indicado que 73% das pessoas que realizaram o teste são menos nerd que eu, entretanto fui classificado com um nível moderado de nerdismo.

Portanto, se quiserem me chamar de meio-nerd eu aceito.

No mais é só...

domingo, 2 de novembro de 2008

Um trabalho escolar

A escola desde sempre representou muito mais do que um lugar para se estudar e aprender algo de útil. Significava um lugar, por excelência, de diversão. Aprender as matérias, ou não, era secundário – e até hoje ainda é nessas localidades distantes do mundo “ilustrado”. Acredito que a ausência de pais, parentes ou vizinhos que apreciassem os estudos fez com que o víssemos como algo chato e até desnecessário.

Na escola aproveitávamos tudo ao nosso alcance para rir e brincar. Dentro das suas dependências o recreio significava o melhor momento dos nossos dias. As brincadeiras fora da escola eram transportadas para dentro dela, agora sem as broncas dos professores e coordenadores, porque, afinal, estávamos no nosso legítimo momento de lazer e descontração. Pelo recreio, o universo da rua adentrava os muros escolares.

Se dentro da escola as brincadeiras rolavam a valer, fora dela, quanto tínhamos que fazer algum trabalho escolar, tudo continuava a mesma coisa. Nessas pesquisas, sugeridas por nossos professores, a oportunidade de sair de casa com algum motivo nobre surgia. Nenhum pai se negava a deixar um garoto sair de casa para estudar ou fazer algum trabalho pra escola. Era o nosso álibi perfeito para chegar a lugares desejados e distantes. 

Certa vez, na 5º série, fomos fazer uma pesquisa um tanto quanto inusitada, proposta pela professora de matemática: verificar os preços dos produtos da cesta básica em vários supermercados do bairro. O intuito seria conscientizar os futuros cidadãos da importância contida no ato de pexinchar, e ainda de quebra trabalhar um pouco com números. Formados os grupos, de mais ou menos cinco pessoas, saímos as ruas, com lápis e lista de produtos nas mãos.

Mas, como era de se esperar, os problemas começaram a surgir no nosso caminho. Acho que por sermos de escola pública, os proprietários dos estabelecimentos não nos deixavam cumprir o nosso papel. Proibiam a nossa entrada, permitindo, quando muito, que somente um fosse verificar in loco os preços praticados. Na maioria das vezes, tentando ser pessoas bacanas conosco, incentivadores da educação, pegavam a nossa lista e iam, eles mesmos preenchendo os dados, e nós ficávamos lá fora, esperando o resultado.

Depois de muita insistência, fazendo aquela carinha do gato do filme Sherk, conseguimos adentrar em um estabelecimento, os cinco, para chegar a resultados mais confiáveis, verificados por nós mesmos. Anota daqui, escreve dali, procura acolá, e pouco a pouco nosso nobre trabalho estava sendo feito. O dono do supermercado, que no início ficou no nosso pé, acompanhando tudo de perto, depois desencanou, percebendo que éramos crianças de princípios, nos deixando continuar sozinhos, sem vigilância.

Terminado o árduo trabalho, fomos à casa de um dos membros do grupo a fim de recapitular todo o esforço feito. Fazia muito calor naquela tarde. Num esboço de bondade, um dos garotos sugeriu ao dono da casa a preparação de um refrescante suco, que prontamente tirou do bolso de sua bermuda. Outro colega, tentando fazer jus ao espírito solidário, apresentou um pacote de biscoito, sua parte na comunhão, tirada não sabe de onde. Após um breve silencio e olhares mútuos, começamos a sorrir com vontade, a gargalhar. Entusiasmados, bebemos o suco, comemos o biscoito e brindamos o dever cumprido.

eu escrevo e te conto o que eu vi e me mostro de lá pra você