- Antes do texto, uma confissão: estou escrevendo estas linhas movido pelo surto de ira. Nesta semana, início do horário de verão (mais um ingrediente no resultado do surto), acordei ouvindo música gospel. Nada contra Deus, mas não suporto músicas evangélicas. Meus atuais vizinhos as ouvem diariamente, quase todas as horas, e com um profundo agravante: chegam a ouvir cada música umas oito, nove ou dez vezes seguidas. Foi o que aconteceu esta semana inteira.
- Os convívios, ou não convívios, no sentido de contato pessoal, que tive com alguns vizinhos não foram nada bons. Na memória, ainda fresca, guardo as lembranças dos quatro últimos. Péssimos moradores do lado. Já que o último post foi sobre vizinhos da infância, decidi escrever sobre os mais recentes. Vamos a eles.
- Na antiga casa, moro há dois anos nesta de hoje, meus vizinhos trabalhavam e moravam na casa. Tinham uma padaria. Como a residência/trabalho era colada na minha, ouvia tudo o que se passava ao lado. E não pensem que essa observação dos hábitos alheios era prazerosa.
- Às 5 da manhã já estavam todos dispostos, como se fosse 5 da tarde. Rádio ligado em uma estação de música sertaneja, conversas altas, piadas, e tudo o que é normal em um ambiente de trabalho, inclusive as brigas entre os funcionários, constantes. Eu, ainda na cama, ouvia despreocupadamente os resultados dos jogos de futebol, impressões sobre a programação do dia anterior na tv, notícias do bairro, como quem morreu, quem foi assaltado...Tudo em primeira mão, no aconchego do meu leito. No restante do dia, o barulho era complementado pelas máquinas da padaria, coladas a minha parede, e que fazia a minha casa tremer junto com o equipamento. O balançar da casa juntamente com o barulho me davam uma sensação de desespero, era como uma obra permanente.
- Se as conversas e o rádio davam a tônica durante a semana, no final de semana era a vez do som do carro. Aos sábados lavavam o automóvel, som ligado no último volume, músicas sertanejas “de raiz”, e outras mais atuais. Mesmo com o carro já seco, o barulho acompanhava a tarde inteira. No domingo, ainda bem, arrumavam um lugar pra ir, e estes dias se mostravam os mais tranqüilos.
- Na casa nova, já nos primeiros dias percebi que a convivência com os novos vizinhos não seria agradável. Tinham o mesmo defeito dos anteriores: predileção por som alto e gosto musical diferente do meu. Forró, funk e música sertaneja eram a trilha que eu era obrigado a ouvir. E isso o dia inteiro.
- Não foram raras as vezes em que fui acordado com este som, as 7 horas da manhã ou até menos. Já imaginou alguém ouvir músicas com volume alto as 6 e meia da manhã de uma segunda, terça ou quarta-feira? Coisa de maluco, pra dizer o mínimo.
- Ao som, somavam-se os gritos da mãe, com o filho ainda garoto. Estridentes. Xingamentos, sermões, ordens e tudo o mais.
- Se até durante a semana o som era ouvido no máximo de volume, imagine nos finais de semana. O império do besteirol musical brasileiro comandava. Banda Calipso, Aviões do Forró, Calcinha Preta, Dj isso, Dj aquilo. Os cds, sempre os mesmos, repetiam as mesmas músicas o tempo todo, numa clara tentativa de me deixar louco.
- Num sábado pra domingo desses, ocorreu o auge da insanidade dos meus vizinhos. Chegaram ao cúmulo da bizarrice de ouvir dois sons ao mesmo tempo, ambos muito altos. Não é mentira e nem exagero, ouviam dois sons na mesma festa, por mais que isso pareça idiotice demais pra qualquer indivíduo minimamente civilizado. Detalhe: até as 5 horas da manhã. Este fato foi tão grave que gerou até uma briga entre eles. O marido queria desligar um dos sons, e a mulher, de forma desesperada e estridente, gritava: “Não devo nada para os vizinhos, o som é meu e vou continuar ouvindo na altura que eu quiser”. A briga foi feia, mas, infelizmente, a vizinha maluca ganhou do marido, que foi obrigado a ir dormir com um barulho daqueles. E eu também, com o agravante de não estar participando da confraternização.
- Em breve, mais um texto sobre meus dois últimos vizinhos, que, coincidentemente, eram evangélicos. No mais é só.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Vizinhos recentes
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