sábado, 17 de novembro de 2007

Breve Entrevista

Breve entrevista, comigo mesmo, sobre “Tropa de Elite”. Parece coisa de louco, mas até que é legal.

Dispersão do Ofício: O filme “Tropa de Elite” é bom?
Kelson: É bom. No entanto, não está a altura de toda essa polêmica.
DO: Como assim?
K: A polêmica dá a entender que o filme é extraordinário, necessário, imprescindível. E não é. Como obra cinematográfica, tem outros nacionais muito melhores. Cidade de Deus, por exemplo.
DO: Cidade de Deus é melhor por que?
K: Tem mais poesia. Isso faltou no filme de Jose Padilha. Fernando Meirelles soube contar uma história repleta de violência de uma forma poética, suavizando as cenas que vemos na tela. A trilha sonora também ajudou muito nisso.
DO: No que “Tropa de Elite” peca?
K: Acho que peca naquilo que todo mundo achou de melhor no filme: a exibição da realidade. Um longa de ficção não é o melhor local para se mostrar a realidade nua e crua, isso empobrece o trabalho artisticamente. Documentários fazem melhor esse trabalho, como bem demonstrou o próprio Padilha no ótimo “Ônibus 174”. Ficção é lugar de imaginação, não de transposição da “realidade”.
DO: O que salva no filme, então?
K: A atuação dos atores, Wagner Moura e Caio Junqueira, principalmente. A propósito, o André Ramiro é muito ruim, beira o amadorismo.
DO: O que achou do Capitão Nascimento?
K: Não é o melhor ponto de vista para se mostrar a realidade da violência. Melhor seria a visão de um morador da favela, trabalhador e honesto, analisando a chegada da polícia e do Bope. As arbitrariedades policiais seriam melhor percebidas assim. Como fez Meirelles, quando escolheu Bené, um garoto pobre e sonhador, para narrar a sua história. Claro que essa narração já veio do livro de Paulo Lins, mas até nisso Meirelles acertou. É tudo uma questão de ponto de vista, onde eu prefiro o dos pobres e marginalizados, ao invés da visão dos repressores.
DO: Finalizando, assistiu ou não?
K: Não indicaria. O filme é pessimista, não deixa espaço pra esperança. Todos, sem exceção, são pessoas não exemplares, mesmo os estudantes da ONG. Não salva um personagem, passa a imagem que não tem saída possível. Violência por violência, melhor ver os filmes do Quentin Tarantino. “Tropa de Elite” pode até apresentar a realidade, mas não faz nada para mudá-la. E isso não ajuda em nada a sociedade.

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