
Tipos da Rua
Sempre que não havia obrigação a ser cumprida procurava pensar em como usaria o tempo livre de forma divertida. Mas esta não era uma decisão fácil, não para apenas um garoto, precisava de mais um punhado de colegas para que pudesse decidir com mais propriedade, e, de forma mais divertida. Garotos sem nada pra fazer era o que não faltava na vizinhança. Hoje, quando lembro, até me impressiona quanta criança tinha em nossas brincadeiras. Mas em meio a tantos outros garotos tinham alguns que se destacavam, por suas características mnemônicas e seus comportamentos curiosos. Sendo assim, vamos continuar a série agora contando dos tipos da vizinhança.
- Leandro (Gordinho): O mentiroso. Um garoto que frequentemente era alvo de chacotas por seu excesso de peso. Vira e mexe sua família estava arrumando as malas para mudar para outro estado. Não sei por que eles levavam bagagens, pois em menos de um ano estavam de volta à mesma rua para a mesma casa. O legal era que, sempre que retornava a vizinhança, tinha uma história pra contar. Uma vez nos contou que foi alvejado por uma flecha, atirada por um índio, mas que ele, em uma atitude viril retirou-a, sem notar a dor, e tratou o ferimento com álcool. Outra vez, sem mudar a expressão natural do rosto, nos disse que na fazenda em que morava montou em um cavalo bravo e conseguiu domá-lo. Detalhe: cavalgou de pé em cima do animal e com os braços abertos, só parando em uma cerca quando ele de repente deu um pinote e o obrigou a saltar e cair retinho, de pé no chão. Por essas e outras histórias o pessoal da rua muitas vezes o chamava de Jaca Paladium.
- Ronaldo (Tripa): O apelão. Oriundo de uma família que mais parecia ter vindo de Dogville, estava sempre exercitando seu moralismo fictício quando discordava das brincadeiras. Seus pais não ficavam em casa durante o dia, talvez por isso estivesse sempre com o cabelo sem pentear e com a aparência um pouco suja. Estas características lhe renderam bons apelidos, capitão lixo era o mais repetido. Constantemente se envolvia em brigas com os outros meninos, por não aceitar as brincadeiras que faziam com relação ao seu visual. Lembro-me às vezes em que ele batia no portão me chamando pra tentarmos "surrupiar" alguma fruta de um vizinho. Ele sempre tinha bons planos, não só para isso, também tinha boas idéias pra conseguir 15 centavos pra irmos ao fliperama.
- Júnior (Japão): O mais/Popular. Júnior, entre os meninos da rua, foi o último a fixar residência na vizinhança, talvez por isso tenha sido tão admirado pelos outros garotos. Havia pelo menos uns três que o tinham como líder. De índole um tanto quanto duvidosa, gostava de brincadeiras desleais e de falar das meninas da rua. Não era muito bom nos esportes, mas era bom de briga, bateu em quase todos que se atreveram a encará-lo, sendo esse mais um motivo pra ser tão bajulado. Lembro-me quando fomos a uma festinha de aniversário e ele ficou a noite toda se insinuando pra uma garota, nós achamos aquilo muito estranho, pois éramos muito moleques e não pensávamos em dividir nosso ócio com meninas.
- Adonias (Quatro olhos): O Galã. Um garoto magro que usava óculos desde uns três anos de idade e que gostava de contar muitos papos, notmalmente se referindo as suas idas e vindas das casas de seus parentes que moravam em outros setores. Esse era um artifício que ele tinha para tentar nos convencer de que suas histórias amorosas eram verdades, pois se dissesse que aconteceram na vizinhança teríamos como desmentí-lo. Chegava a ser insuportável quando ele insinuava que estávamos ganhando a brincadeira somente porque tínhamos trapaceado, ou quando dizia que iria parar de brincar porque estávamos usando o fato de sermos os donos dos brinquedos. Mas o que ficou marcante dele era a quantidade de garotas que tinha sentido o gosto de seus beijos. Quando tinha 10 anos já tinha uma lista de umas 15 meninas. O melhor de tudo é que as garotas mais lindas do bairro eram ou foram apaixonadas por ele, pelo menos isso é o que ele dizia, mas quando tinha a oportunidade de ficar frente a frente com alguma inventava uma desculpa e saía fora. Ninguém nunca o viu com nenhuma dessas meninas, nem mesmo ouviu alguma falar nada sobre ele. Quando tínhamos por volta de uns 9 anos, ele me fez uma pergunta que me deixou sem nenhuma resposta: "quando vai dar um beijo de língua você oferece a língua ou espera ela oferecer?"
- Rosângela: A miss. Loira, pele clara, educada. Era o sonho de todos os garotos da rua, um pouco inalcançável para nós “moleques”, pois mantinha uma distância de, mais ou menos, quatro anos de idade à nossa frente. Era cortejada pelos meninos mais velhos, os que já trabalhavam e que, por isso, tinham condições de comer x-salada mais de uma vez por semana. Na data de seu aniversário foi presenteada com quatro caixas de bombons e duas bolas grandes, comprados com pelo menos uma semana de trabalho pesado dos meninos. Era comum presenciármos discussões e brigas por causa dela. Uma, a mais aguardada da rua, aconteceu entre os dois mais fortes da rua, eram mais velhos, mais altos, mais opressores, mas eram muito amigos, até o dia em que cismaram que ela gostava de um deles. De tão esperada a briga não durou um minuto sequer, talvez porque, tanto quanto nós, eles também tinham medo um do outro. Mas Rosângela não era linda apenas pros garotos da vizinhança, tanto que acabou se envolvendo com um dos caras mais populares do bairro, bem mais velho, mestre de capoeira. Foi o fim dos nossos suspiros, a partir daí passamos apenas à admirá-la, agora sem aspirações.
No mais, é só...
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