A escola desde sempre representou muito mais do que um lugar para se estudar e aprender algo de útil. Significava um lugar, por excelência, de diversão. Aprender as matérias, ou não, era secundário – e até hoje ainda é nessas localidades distantes do mundo “ilustrado”. Acredito que a ausência de pais, parentes ou vizinhos que apreciassem os estudos fez com que o víssemos como algo chato e até desnecessário.
Na escola aproveitávamos tudo ao nosso alcance para rir e brincar. Dentro das suas dependências o recreio significava o melhor momento dos nossos dias. As brincadeiras fora da escola eram transportadas para dentro dela, agora sem as broncas dos professores e coordenadores, porque, afinal, estávamos no nosso legítimo momento de lazer e descontração. Pelo recreio, o universo da rua adentrava os muros escolares.
Se dentro da escola as brincadeiras rolavam a valer, fora dela, quanto tínhamos que fazer algum trabalho escolar, tudo continuava a mesma coisa. Nessas pesquisas, sugeridas por nossos professores, a oportunidade de sair de casa com algum motivo nobre surgia. Nenhum pai se negava a deixar um garoto sair de casa para estudar ou fazer algum trabalho pra escola. Era o nosso álibi perfeito para chegar a lugares desejados e distantes.
Certa vez, na 5º série, fomos fazer uma pesquisa um tanto quanto inusitada, proposta pela professora de matemática: verificar os preços dos produtos da cesta básica em vários supermercados do bairro. O intuito seria conscientizar os futuros cidadãos da importância contida no ato de pexinchar, e ainda de quebra trabalhar um pouco com números. Formados os grupos, de mais ou menos cinco pessoas, saímos as ruas, com lápis e lista de produtos nas mãos.
Mas, como era de se esperar, os problemas começaram a surgir no nosso caminho. Acho que por sermos de escola pública, os proprietários dos estabelecimentos não nos deixavam cumprir o nosso papel. Proibiam a nossa entrada, permitindo, quando muito, que somente um fosse verificar in loco os preços praticados. Na maioria das vezes, tentando ser pessoas bacanas conosco, incentivadores da educação, pegavam a nossa lista e iam, eles mesmos preenchendo os dados, e nós ficávamos lá fora, esperando o resultado.
Depois de muita insistência, fazendo aquela carinha do gato do filme Sherk, conseguimos adentrar em um estabelecimento, os cinco, para chegar a resultados mais confiáveis, verificados por nós mesmos. Anota daqui, escreve dali, procura acolá, e pouco a pouco nosso nobre trabalho estava sendo feito. O dono do supermercado, que no início ficou no nosso pé, acompanhando tudo de perto, depois desencanou, percebendo que éramos crianças de princípios, nos deixando continuar sozinhos, sem vigilância.
Terminado o árduo trabalho, fomos à casa de um dos membros do grupo a fim de recapitular todo o esforço feito. Fazia muito calor naquela tarde. Num esboço de bondade, um dos garotos sugeriu ao dono da casa a preparação de um refrescante suco, que prontamente tirou do bolso de sua bermuda. Outro colega, tentando fazer jus ao espírito solidário, apresentou um pacote de biscoito, sua parte na comunhão, tirada não sabe de onde. Após um breve silencio e olhares mútuos, começamos a sorrir com vontade, a gargalhar. Entusiasmados, bebemos o suco, comemos o biscoito e brindamos o dever cumprido.
Um comentário:
Só espero que o dono do supermercado nunca leia isso!!!
Adorei!
Simone Capre
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