Estávamos na 5º série. Certo dia, vendo uma colega com alguns apetrechos da Coca-Cola (estojo, caneta, borracha...), quis saber onde ela tinha conseguido. A resposta veio como um incentivo: na própria fábrica, que ficava sempre aberta a garotos e garotas desejosos de brindes escolares. A facilidade, como sempre, ficou somente nas nossas cabeças.
No meu exercício contínuo de imaginação, talvez influenciado pelo desenho “O fantástico mundo de Bob”, vi uma fábrica similar a do Willy Wonka (substitui-se o chocolate pelo refrigerante), algo como um paraíso das crianças, repleta de refrigerantes, novidades, pessoas nos agradando, e muitos brindes.
Contei a boa nova aos amigos. Entre os desconfiados, sem esperança, pessimistas e profetas de mau-agouro, encontrei alguns otimistas, ávidos por coisas gratuitas, dispostos a ir atrás dos penduricalhos: Luiz (ele mesmo, o meu parceiro de blog), Evandro e Marcinho.
Fizemos vários planos para o que iríamos ganhar. Usar, dar a algumas garotas, e até vender - bem caro, aqueles que duvidavam do nosso êxito. Receberíamos beijinhos, abraços e até alguma grana. Bastava ir à fábrica, pegar os produtos e esperar os benefícios. O caminho percorrido foi cheio de risos e brincadeiras. (As crianças costumam ser esperançosas por natureza). Quando descemos do ônibus, notamos que o mundo não era tão azul: os homens de farda camuflada estavam lá.
Não me pergunte o motivo, mas tinha sim soldados do exército na portaria da fábrica da Coca-Cola. Seria um prenúncio de uma aliança futura entre o Estado brasileiro e a maior das transnacionais? Ou o contrário, uma tentativa de nacionalizar a empresa, digna de um Evo Morales ou Hugo Chaves? Não, o presidente na época Fernando Henrique não tinha essas características nacionalistas. Para os acreditam em teorias da conspiração pode-se encontrar vários motivos dos soldados lá.
Por ironia do destino, alguns anos depois, fui trabalhar naquela fábrica, mas já não tinha vontade de ganhar brindes, só dinheiro mesmo, pelo trabalho árduo executado (fiquei lá três meses carimbando papéis e disfarçando que estava fazendo algo importante).
Estando dentro do paraíso, percebi que a maior fábrica de refrigerantes do mundo estava longe de ser a “Fantástica Fábrica de Chocolate”, que via no “Cinema em Casa”, do SBT. Ali, por incrível que pareça, não vi nenhuma visita de crianças. Brindes? Nem pensar. Logo conclui que as crianças têm uma ingenuidade que as fazem cometer tolices.
Mas, se houve êxito ou não, agora penso que pouco importa. Relembrando aqueles momentos, cheguei à conclusão que os caminhos são tão ou mais importantes que os objetivos. Os objetivos são logo esquecidos e substituídos por outros, já os caminhos ficam na memória, como um ensinamento perene.
Se não conseguimos alcançar o objetivo principal, no entanto, ficamos com o melhor: a aventura.
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