quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Olho(s) Mágico(s)


As sensações eram mais evidentes, tínhamos em torno de catorze para quinze anos. As meninas deixavam de ser nossas rivais. Nada mais de meninos contra meninas, ao contrário, começávamos a misturar os clubes do bolinha com o da luluzinha. As garotas se enchiam de penduricalhos e maquiagem, enquanto nós tentávamos inovar no vestuário: calças multicoloridas, com bolsos laterais, camisetas de banda, bonés colocados na cabeça de ene formas diferentes... Tudo com um único propósito, impressionar as coleguinhas. Era a idade em que os pensamentos eram regidos pelos hormônios, a testosterona começava a ditar nossa maneira de agir. Um simples sinal de qualquer peça íntima feminina desencadeava uma série reuniões que desaguavam em várias histórias que (verídicas ou não) eram precursoras de confissões inesperadas sobre os amores da idade e de muitas gargalhadas.
Na oitava série (sério dos beijinhos e abraços) havia mais alvos que metas, até porque as meninas começavam a se interessar pelos garotos mais velhos, e elas, com corpos em formação, despertavam mais interesse ainda dos rapagões. Isto fazia com que as meninas se distanciassem de nós mais jovens. Mas a impossibilidade de conquistas não nos impedia de fantasiar. Repetidamente sentávamos num canto da sala e ficávamos absortos exercendo a idolatria dos corpúsculos, apontando para as mais chamativas e sugerindo episódios eróticos nada românticos. 
Essas rodinhas não se limitavam à escola e se estendiam para além dos muros do colégio. Em um desses eventos extraclasse o acaso nos propiciou momentos de deleite surpreendentes. Na casa de um colega de classe descobrimos, sem a menor intenção, por coincidência que a vizinha dos fundos (para nossa felicidade) era a mais vistosa novata da oitava série. E, por conta disso, um caprichoso orifício foi aberto no muro, tínhamos então acesso a privacidade alheia. 
Além da curiosidade inicial, e do fato de ver a área dos fundos de uma casa, não deveria ter nada de atrativo, pelo menos não deveria se não fôssemos agraciados pela imaginação juvenil e pelo habitual costume da garota entrar no quarto agasalhada e voltar sem nenhum lenço sequer cobrindo seu corpo.Tínhamos descoberto o pote de ouro atrás do arco-íris.
Toda essa libertinagem não podia ficar restrita a um grupo tão resumido. Na adolescência as travessuras só se tornam prazerosas quando são compartilhadas com os amigos. Entretanto, não podíamos anunciar num carro de som, no máximo contar para pelo menos os melhores amigos. Na semana seguinte o número de aberturas no muro havia dobrado enquanto o número de espectadores triplicado. 
O fato dos pais da colega não ficarem em casa durante o dia a obrigava (junto com dois irmãos menores) a realizar todas as tarefas de casa, inclusive cuidar das roupas. Contávamos os minutos para o dia da lavanderia, pois era quando ela mais se aproximava do muro. Os dias de lavanderia eram os de lotação máxima, tanto que o muro não comportava tantos garotos eufóricos, alguns menos dispostos a esperar a vez subiam (na mesma velocidade que caiam) em árvores tentando adiantar as sensações. Por conta dessas minuciosas observações aprendemos todos os passos para se lavar uma roupa.
Embora a protagonista não tivesse notado nossa presença, nosso recreio não durou muito tempo. Nosso colega, o dono da casa, que na verdade era um inquilino, foi obrigado a encontrar uma nova moradia, pois o proprietário de fato daria outro uso ao imóvel. Juntamos todos pra tentar bolar algo que pudesse contornar, ou somente prolongar, esse infortúnio. Nada pudemos fazer... 
Nos contentamos então em aproveitar os últimos dias que, não por acaso, foram os melhores, nossa normalista guardava para despedida as melhores atuações, como se soubesse que era a derradeira aparição diante dos olhos mágicos. O saboroso lazer não tornou a se repetir, passamos o resto da amizade reconstruindo os episódios através de esporádicas recordações saudosistas.
No mais é só...

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