• Em entrevista a revista Trip de julho, Caco Barcellos esbanjou serenidade e demonstrou porque é o melhor repórter da televisão brasileira.
• Vindo de família pobre de Porto Alegre, teve muitas dificuldades em estudar e seguir a sua missão jornalística. Cansou de “correr da polícia”, prática rotineiramente executada por jovens de periferia.
• Nos locais mais pobres isso é quase uma regra. Seja bandido ou não, o mais prudente é manter distância da força repressiva do Estado, esta quase sempre propensa a exigir dos menos favorecidos mais explicações que o necessário.
• Por ter vindo de baixo, Caco preferiu reportar as angústias e esperanças das pessoas esquecidas pelo poder. Infelizmente, no Brasil, a maioria da população se concentra nesse perfil.
• A reportagem encontrou nesse gaúcho um porto-seguro. Convidado a ser apresentador, preferiu a rua e as suas histórias. Geralmente, jornalistas não recusam tal proposta, por achar que fazer reportagens nas ruas, pegar sol e chuva, é coisa de principiante na profissão, ofício de “foca”.
• Nos tempos de velocidade da informação, notícias novas a cada segundo, raro são os profissionais dispostos a passar meses e até anos em uma só reportagem. Por isso, as idéias de Caco Barcellos e o seu “Profissão Repórter” trouxeram um novo alento ao jornalismo brasileiro.
• Além dele, vejo alguns “velhos” jornalistas lutando para não verem essa prática da grande reportagem morrer. Ricardo Kotscho, ótimo profissional, com um texto agradável e inteligente, é um deles. Na época do extinto site “No Mínimo”, dedicou alguns textos em defesa da mais nobre tarefa do jornalista narrador.
• O ato de reportar trás o que há de mais prazeroso no jornalismo: a possibilidade de contar histórias, abordar diversos pontos de vista. Com calma e vigor, paradoxalmente. Ler ou assistir a uma boa reportagem abre janelas interessantes para a compreensão, além de trazer uma sensação de proximidade com o acontecimento bem maior que a simples notícia e subseqüente, quando há, crítica.
• Na reportagem pura e simples, a crítica é feita pelo telespectador/leitor, cabendo ao repórter a essencial obrigação de contar todos os lados possíveis de um fato.
• Talvez esses dois jornalistas, símbolos de resistência, sirvam de exemplo para os futuros profissionais de imprensa. Voltar um pouco ao passado seria bom, admirar grandes repórteres das gerações passadas, dar maior valor ao texto e as narrativas das pessoas, que em última instância trazem muito de sentimento coletivo.
• Deparar-se com uma infinidade de informações em pouco tempo nos trás a errônea impressão de saber muita coisa. Entretanto, esse contato raso com as notícias não deixa espaço para o aprofundamento. E é na necessidade de superar isso que entra o papel determinante do repórter.
sábado, 2 de agosto de 2008
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